Proposta Pedagógica

 

Podemos resumir nossa proposta pedagógica na seguinte frase:

Só podemos guiar uma criança para um lugar que já fomos, no mais só podemos acompanhá-la.

Temos várias inspirações pedagógicas (Construtivismo, Paulo Freire, Vygotsky, Wallon, Pedagogia de Projetos, Escolas Democráticas, entre outras) e escolhemos uma proposta inovadora que nasceu de uma prática e não de uma teoria: a Educação Viva e Consciente.

Para atender as exigências da atualidade e ofertar a construção de um novo futuro é necessário atualizar o verdadeiro sentido pedagógico da Escola. Na Educação Viva e Consciente, as competências de aprendizagens tradicionais sistematizadas pelo MEC continuam sendo ofertadas, contudo, a forma que a criança acessa esses conteúdos atravessa, necessariamente, a construção da autonomia, tornando a criança, verdadeiramente, a protagonista de sua própria aprendizagem.

Com o advento das tecnologias e a democratização da informação, consideramos que o principal papel da escola é facilitar que as crianças aprendam a aprender, ou seja, se tornem autodidatas conscientes e críticas de qualquer conhecimento. A promoção da autonomia está em destaque nos requerimentos do MEC, contudo, o grande desafio é que para realizá-la é preciso recriar o formato de ensino-aprendizagem até então praticado. A questão é como promover uma aprendizagem autônoma se nós adultos (pais e professores) tivemos uma educação heterônoma, que basicamente significa governada sempre pelos outros. É preciso ressignificar a relação da educação para que as crianças construam seus próprios caminhos e aprendam de forma autônoma, isso significa dizer que, com a interferência precisa e mínima possível de nossos condicionamentos adultos (família e educadores) como: julgamentos, qualificações, comparações e expectativas.

Resgatando a cultura do brincar, experienciamos diariamente que é através do brincar “consciente” que surgem princípios fundamentais da autonomia como: confiança, união, criatividade, entusiasmo e relação. O brincar “consciente” consiste em brincar livremente a partir da orientação de um educador que estabelece permissões e limites da relação de cada criança consigo mesma, com os outros e com a natureza.

Convidamos aos pais para observarem os resultados ao permitirem que seus filhos num ambiente preparado e consciente possam desenvolver-se no tempo certo (o tempo dele), reconhecendo suas aptidões e limites, guiando-se: ora pelo desejo natural de aprender, escolhendo a forma, o conteúdo e o tempo de interagir; ora guiando-se pelos educadores conscientes, quando necessário, do processo da cada criança.

Mistura de Idades

Em toda literatura pedagógica não há qualquer argumento científico para separarmos as crianças pelas faixas etárias em classes assim como prejuízos da mistura de diferentes idades. Ao contrário, há estudos atuais que defendem uma aprendizagem mais significativa com a relação multi-idade.

Na nossa prática, propiciando a interação de diferentes idades, fomos ratificando a qualidade e riqueza dessas aprendizagens. Percebemos a necessidade apenas de limites claros e harmônicos a partir da separação de qualidades de espaços distintos para os ciclos de idade. Por exemplo, há espaços mais silenciosos e simples preparados para os menores, espaços preparados para qualquer idade ou espaços com materiais mais complexos que só os maiores têm acesso. As crianças escolhem os espaços de aprendizagens de acordo com seus interesses e com as dinâmicas de cada ambiente.

Papel dos Educadores

As responsabilidades de nossos educadores são: zelar por cada criança; validar o desejo natural de aprender de cada uma; reconhecer até onde ela pode ou não conduzir-se sozinha e apoiá-la em suas descobertas.

Papel das Famílias

As responsabilidades das famílias do Quintal são: acompanhar os processos de aprendizagens que ocorrem no Quintal frequentando reuniões individuais, coletivas e observações supervisionadas; oferecer sugestões junto com críticas para uma construção coletiva e nos comunicar sobre as experimentações de aprendizagem em casa. Para educar integralmente uma criança é preciso uma união de olhares na mesma direção, cada um de sua perspectiva familiar e escolar.

Nosso maior desafio

O verdadeiro desafio para nós adultos é praticar a consciência na relação com as crianças, estar presentes, diante das questões e incertezas que elas nos apresentam como nossas falhas de autoridade, limites e confiança por exemplo.  Para diminuir a distância do universo infantil do adulto, o Quintal se propõe a ser um espaço de consciência e de apoio mútuo como uma “aldeia moderna” unindo “guianças”, olhares e práticas de diferentes perspectivas (de cada família e educador), mas com a mesma essência e direção.

Por que “Educação Viva”?

Há alguns princípios sólidos como: confiança, autonomia, ordem e harmonia, criatividade e felicidade. Porém, além deles, tudo está em constante mudança no Quintal; como se ele fosse um organismo vivo em evolução constante. Qualquer tentativa de repeti-lo, encaixá-lo num padrão ou criar uma teoria perde-se facilmente a conexão com as crianças e corre o risco de se tornar mais uma teoria ou pedagogia morta que pode nos aprisionar. É preciso criar, dia após dia, momento a momento, cada olhar para cada criança em suas infinitas possibilidades. Com os olhos vivos, conseguimos ver que tudo pode se transformar rapidamente, desde o espaço, às regras – que podem mudar quando não fizerem mais sentido, às vezes no mesmo dia -, aos educadores, crianças e famílias; toda vida em constante pulsação e evolução.  Pela prática, percebemos que, quando há clareza no espaço e nas relações, nosso “termômetro” que conduz as mudanças torna-se bem visível. Ele é medido pela alegria, expressão de união e criatividade que cada criança manifesta. Só somos autônomos convivendo em harmonia consigo, com os outros e com a natureza.

Por que a escolha é da Criança?

A autonomia é algo que se apreende na prática, desde muito cedo. Ser verdadeiramente responsável e consciente das próprias ações e de todo o ciclo dela não é algo que se transmite, como um conteúdo, mas que se aprende diariamente junto com os outros, sejam educadores ou colegas. A palavra responsável carrega, erroneamente, certo peso, pois acreditamos que quanto mais responsabilidade, menos liberdade obtemos. Aprendemos com nossas crianças justamente o oposto; quanto mais responsabilidade adquirimos, mais livres somos. Desde um exemplo simples, como aprender a amarrar o próprio sapato para tirar e colocar quando quiser, até relações complexas de torna-se consciente do que o outro sente para não ultrapassarmos os limites e, assim, fluirmos em harmonia e livres nas relações. Quando sempre direcionamos as atividades da criança e não há praticamente espaço de autoconstrução, formamos crianças heterônomas que precisam do agente punitivo para o agir ético (e não por consciência) e são, quase sempre, levadas pelas decisões de outras pessoas. Ao chegar à fase adulta a tendência é que se torne mais uma parte mecânica de um sistema, não um ser humano vivo que escreve sua própria história. Uma vez que esse poder é devolvido aos pequenos, eles têm a real oportunidade de desenvolver responsabilidade, acompanhando suas próprias decisões desde a tomada até a realização e suas conseqüências, tornando-se verdadeiramente conscientes de seus atos. O resultado disso, muitas escolas pelo mundo já comprovaram, são pessoas seguras, motivadas, criativas, que sabem o que querem e alcançam seus objetivos.

O que é “Educador-guia” e uma Educação Consciente?

Não há “professores” de um paradigma antigo, e sim guias. O educador-guia protege o espaço e as crianças, deixando o caminho livre para que cada criança se expresse, oferecendo o suporte necessário para que se sintam seguras e confiantes nelas mesmas. Ele também observa e transforma os materiais e até o próprio espaço conforme a demanda. Sua função chave é a de preservar a ordem e harmonia nas relações e no ambiente. Um caminho que descobrimos é simples, porém profundo: estar conscientes e garantir que, pouco a pouco, as conseqüências de cada ato sejam assumidas pelas próprias crianças. Para isso o educador-guia precisa manter sua atenção elevada, sempre a serviço das crianças. A chave é: só podemos guiar uma criança até onde fomos, no restante só podemos acompanhá-la. Um guia do Quintal precisa encontrar a própria autonomia e guiança como exemplo para as crianças, pois não educamos pelo que sabemos e sim pelo que somos. Nesse caminho, há uma autoridade que vêm do coração e é naturalmente reconhecida por cada criança como uma guiança genuína que está lá não para limitá-la e sim, o contrário, para ajudá-la a descobrir o mundo com segurança e responsabilidade, e assim, exercer plena e naturalmente a própria expressão.

Todos os dias, antes de abrir o Quintal, os educadores-guias praticam procedimentos para estarem mais presentes e desaprenderem os condicionamentos que podem atrapalhar a conexão com as crianças como: meditação, exercícios na terra, limpeza consciente do espaço; tudo para que nossa percepção esteja centrada e aguçada. Ao fim de cada turno, conversamos sobre o que aconteceu, o que sentimos, o que percebemos de nós mesmos através das crianças, que são espelhos límpidos, e, também, sobre nosso próprio desenvolvimento em autonomia e realização.

Quando os Educadores-guias interferem?

É função do educador-guia cuidar para que os limites sejam reconhecidos.. É imprescindível reconhecê-los para manter a ordem e a harmonia no espaço, entre eles, e também para ajudar a criança a se organizar internamente. A intervenção é necessária quando há a invasão desses limites. Quando os educadores reconhecem um limite, coloca-se como regra ou procedimento que fica vigente até fazer sentido para o grupo e, algumas vezes serve naquele momento. Utilizamos a lembrança do sentido da regra, para aquele grupo e espaço, para instituir uma regra: “Aqui, o que sujamos, limpamos”. Para cada espaço, a partir da evolução da regra, são criados procedimentos para utilizá-lo com ordem e harmonia, desde quando somos capazes de fazê-lo, o que muitas vezes é desde pequeninos. Os procedimentos foram criados a partir da observação constante daquele grupo. Por exemplo, há os procedimentos gerais como “Tudo que tiramos do lugar, guardamos”. “Fazemos uma coisa, depois a outra”. Há também os procedimentos mais específicos como “Para entrar na cabana precisa pedir permissão a quem estiver dentro” que pode fazer sentido no inicio da interação; depois que ambos estão em harmonia já não é mais necessário e este procedimento e o que antes facilitava agora pode limitar a fluidez da interação. É preciso um acompanhamento constante e 100% presente e, as crianças rapidamente, por mais que em casa não os façam, aprendem sem dificuldade a cumpri-los no Quintal. As regras e procedimentos são intervenções simples que fazem toda a diferença para o respeito e construção da autonomia, pois a autonomia é construída a partir do convívio diário de forma co-participativa com as intervenções dos educadores e interações com o espaço e colegas.

E o currículo escolar?

Não seguimos um currículo padrão, pois para nós cada criança é irreptível e sua forma mais potente de aprender é tornando-se autônomo e seguindo seus próprios interesses. Ou melhor, seguimos o currículo de cada criança. Temos (e se não tivermos, providenciamos) material, preparo e disposição para ajudar cada criança no que quer que ela manifeste de vontade de aprender, como matemática, música, costura, dança, geografia, etc. Nisso não há limites nem prazos, o entusiasmo e a curiosidade genuína da criança são os melhores parâmetros para qualquer aprendizagem significativa.